Querem encontrar quem perdeu

Reprodução: Marinha do Brasil (Wikimedia Commons)

Blindados têm rondado o perímetro do Hospital Naval Marcílio Dias no Lins. Querem incrementar a segurança na área depois da tragédia. A perícia já tem trabalhado também no local para determinar a origem do disparo.

Gisele Mendes foi não a primeira, mas a 105ª vítima de bala “perdida” no Grande Rio em 2024, segundo o Instituto Fogo Cruzado. A terceira vítima só nesta semana.

Na quarta-feira, outra: um menino de seis anos baleado a caminho da escola em Vila Kosmos. “Tiros seriam destinados a um homem, mas atingiram o menino no peito” — lê-se na linha de apoio da notícia na Agência Brasil. Atingiram o destino do menino. E há mais. Tantas mais. Muitas crianças, principalmente. As quais nada têm a ver com o mundo em que chegaram.

Mesmo diante de tantas fatalidades, o caso de Gisele Mendes impressiona e comove. Tem repercutido. É daqueles em que o cruel destino cria coincidências que viram simbolismos.

Gisele Mendes estava em local supostamente “seguro”. Dentro de um terreno militar na Zona Norte do Rio. Ela própria era militar. Compunha o quadro das Forças Armadas que tanto têm sido chamadas a resolver o conflito irresolvível por força nenhuma. Perdeu a vida em uma “guerra que não escolheu disputar”, diz a reportagem da CNN.

A bala a alcançou ali. Dentro da Escola Superior de Saúde da Marinha, enquanto trabalhava. Um estabelecimento educacional. Tal qual as escolas públicas que vemos na linha de fogo destes conflitos armados. E a que tantos estudantes e professores são submetidos.

Gisele Mendes faleceu no Dia Internacional dos Direitos Humanos. Que celebra a Declaração Universal de 10 de dezembro de 1948. Carta que poria fim à barbárie promovida pelo Estado sob o manto da inviolável soberania. Em 10 de dezembro de 2024, a operação policial conduzida pelo Estado brasileiro na favela próxima ao Hospital custaria a vida de Gisele Mendes.

E ainda: ela faleceu no dia também do aniversário de seu filho caçula. Que — acredito — não conseguirá mais celebrar seus anos de vida da mesma forma diante da tristeza sem fim que marcará também essa data. Tristeza essa compartilhada com tantos outros filhos sem mãe, pais e mães sem filhos e filhas perdidos nesse conflito terrível.

“Vou seguir para que chegue o dia que isso não aconteça com a mãe de ninguém”

— disse o filho mais velho de Gisele Mendes, Carlos Eduardo Mello, ao G1.

Carlos Eduardo, em entrevista a’O Globo, aproveita para fazer um apelo para que o caso de sua mãe não seja usado para reforçar o “caráter violento de nossa cidade”. E tem razão. De nada adianta. Apenas cria medo que, por sua vez, desemboca em discursos de violência que fazem ciclos viciosos. E não resolvem o problema — pioram.

Os fatores estruturantes do problema da violência urbana passam batido nessa nossa política de segurança, como ressalta Carlos Eduardo. Especialmente a desigualdade social e a falta da presença do Estado. E apelamos às velhas fórmulas ineficazes.

Por isso, no Lins, os blindados fazem rondas e rondas. Com toda segurança efêmera e póstuma que trazem.

Aquela área é uma dessas “esquecidas” pelo Estado. Um paradoxo. É adjacente a um hospital da Marinha! Ou seja, o Estado é intramuros. Extramuros, nada. Sem escolas, sem serviços públicos, com saneamento precário. O Estado só se faz presente pelos blindados que circulam agora. O Estado repressor. E quando pararem de rondar?

Volta-se à normalidade. O Estado que mal se mantêm intramuros, como já se denota pelas pichações do Comando Vermelho nas paredes dos prédios do Hospital. Aquele terreno militar passa a ser, virtualmente, uma espécie de “embaixada”, naquele lugar.

Mas, em vez de enfrentar-se o problema, já se cogitou a fuga. O G1 apurou que a Marinha estudou remover o hospital do local em razão da violência. Para o Estado ir definitivamente embora e assumir sua impotência.

Junto com os blindados, a perícia. Querem determinar quem disparou a bala “perdida”.

Querem encontrar quem foi que “perdeu”.

É justo. Para a Justiça, é preciso determinar o autor. Mas para haver mesmo justiça efetiva e duradoura, é preciso enfrentar essa situação. De forma inteligente. Estrutural.

Do contrário, mais balas serão perdidas, como a que encontrou Gisele Mendes e tantos outros mais. A custo humano incalculável. É preciso focar em evitar, prevenir, em vez de remediar.

Se as balas permanecerem dentro de seus cartuchos, não serão perdidas.

Querem encontrar quem perdeu?

Foi a família de Gisele Mendes, foi a Marinha, foi a Medicina. Foi a família de cada uma das outras vítimas de balas perdidas no Rio de Janeiro. Foi o futuro das crianças. Foi o Brasil, fomos todos nós. Todos perdemos. Todos os dias.

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