Hoje o teatro Dolby foi pintado de verde e amarelo. Diria que é clima de vitória de Copa do Mundo! Mas eu, nos meus poucos vinte e cinco anos, não tive o prazer de ver o Brasil campeão de copa — 2002 não conta, ainda estava praticamente de fraldas. Ousaria dizer, no entanto, que é mais que Copa.
No futebol, já temos cinco taças (e rumo ao hexa!). Mas… no cinema… o gosto é de primeira vez!
E da primeira vez a gente nunca esquece…
Especialmente quando já estivemos tão perto. Batemos na trave.
Em 1999, tivemos configuração parecida: “Central do Brasil”, essa obra do mesmo Walter Salles que disputou o melhor filme, e Fernanda Montenegro (a Fernandona) como melhor atriz. Aquela disputa, todavia, era um “jogo de cartas marcadas”. Puro lobby. A estatueta já estava prometida a Gwyneth Paltrow — que fez tanto caso do prêmio que, outro dia, revelou usá-lo como peso de porta. Com razão, os brasileiros se ressentiram com o episódio, alcunhado de “a maior injustiça da história dos Oscars”. Guardamos rancor dessas situações como ninguém.
E sabem por quê?
Nada une mais os brasileiros do que ver o país brilhar no estrangeiro. É um sintoma paradoxal do vira-latismo nosso. Que acha que precisa de validação estrangeira, mas que — ao mesmo tempo — nos faz sentir um orgulho essencialmente anti-vira-lata. Um que nos faz ver que o Brasil tem possibilidade, tem potencial.
O nosso vira-latismo esmaga o Brasil. Faz profecia autorrealizável de um futuro tolhido.
Com tantos problemas, como pensar que esse país tem jeito? Entramos em um ciclo vicioso de apontar problemas sem apontar saídas. E olhar para fora com uma ingenuidade também brasileira que não enxerga os mesmos problemas no exterior. Como se outros países tivessem encontrado a resposta para tudo e só nós estivéssemos na lanterninha.
Mas, no fundo… no fundo, o brasileiro sabe o país que tem. No cerne, mora em si um desejo incontível de reconhecimento desse país maravilhoso, com tantas qualidades. Esse país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, canta Jorge Ben. O país que deu ao mundo tantas coisas maravilhosas.
Deu o avião de Santos Dumont. Deu o balanço da Bossa Nova, a Garota de Ipanema de Tom Jobim e Vinícius, de João Gilberto e tantos outros. Deu o samba do Rio de Janeiro e da Bahia. Deu a música orquestral de Villa-Lobos. Deu capoeira, a luta-dança da resistência escrava. Deu a prosa do imortal Machado de Assis. Deu Jorge Amado, Guimarães Rosa, Clarice Lispector e tantos outros escritores brilhantes. Deu a Antropofagia de Oswald de Andrade, de Tarsila do Amaral. Deu as linhas sinuosas de Oscar Niemeyer. Os versos de Drummond, de João Cabral, de Cecília Meireles e tantos outros trovadores do Brasil. Deu também a poesia no caminhar de Gisele Bündchen, a primeira übermodel do mundo. Deu a garra de Ayrton Senna. Deu o futebol de Pelé. Deu o futebol-arte. Deu o maior carnaval do mundo. Deu açúcar, deu café, deu açaí, acarajé, borracha, tapioca e tanto mais.
Hoje, dá também o cinema de Walter Salles. E a atuação de Fernanda Torres (a Fernandinha), de Selton Mello, da ‘Fernandona’ — cujos silêncios dizem mais que os discursos — e de tantos outros. Dá, ainda, a escrita de Marcelo Rubens Paiva.
Entram onde já estavam: no nosso panteão.
Com uma história tão tocante e necessária nos tempos sombrios que se desdobram no presente. Rubens Paiva e Eunice Paiva ainda estão aqui — e não podem ser esquecidos. Como também os horrores da ditadura e autoritarismo. E a obra-prima de Salles resgata essa história de uma forma sensível e tocante. Com um olhar artístico único que permite que a arte faça aquilo que faz de melhor: fale conosco. A nossa arte.
É um respiro.
Faz o próprio brasileiro olhar para si um pouco. E refletir o cinema que tem. A história do audiovisual no Brasil não começa hoje. Nem culminou nesse momento. O Oscar é um acaso — para o qual estávamos preparados, diz Joaquim Falcão. É brinde a esse audiovisual que tanto luta para existir e para ser reconhecido mesmo intramuros. Ainda Estou Aqui se junta a Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, a O Auto da Compadecida, de Guel Arraes — adaptado da grande obra do imortal Ariano Suassuna —, Bye Bye Brasil do também imortal Cacá Diegues, e a tantos outros. Sem falar nas internacionalmente renomadas novelas. Que param países.
Como se esquecer do último capítulo de Avenida Brasil? E aqui, em Portugal, a Assembleia da República suspendeu a última sessão do ano, em 16/11/1977, para que os parlamentares pudessem assistir ao último capítulo de Gabriela, Cravo e Canela, baseado na obra homônima de Jorge Amado.
O que o brasileiro quis hoje e conseguiu foi dar ao mundo um gostinho do Brasil. A nossa grande frustração vem de sermos um povo que gosta de compartilhar. Sabemos o quão maravilhoso é nosso país. Somos orgulhosos dele (83% dos brasileiros declaram ter “orgulho do Brasil”, constata pesquisa do IPEC recente). Mas queremos que os outros também o saibam. “Olha aqui o que vocês estão perdendo!” — sentimos. Ou, em outras palavras, diz a própria Fernanda Torres:
O Brasil tem esse complexo de vira-lata, dessa não-comunicação com o mundo, e, por outro lado, o Brasil tem pena do mundo não saber o que a gente sabe. Quando alguém fura a fronteira e leva algo que nos é pessoal para fora, é essa espécie de sentimento de ‘olha o que a gente tem de rico’
Hoje o mundo se torna um pouco mais brasileiro. E todo o mundo aprende um pouco daquilo que o Brasil tem para dar. Que tem em abundância. Que germina “uma cultura altamente referencial, mas abaixo da linha do Equador” — diz Fernanda Montenegro — “de vez em quando, conseguimos cruzar essa linha”. Hoje cruzamos.
Eis o que temos de rico. Não estão mais perdendo.
E o principal: além de taças, agora podemos agora começar a competir em estatuetas com os argentinos — nessa, eles ainda estão na nossa frente.
E aos 25 anos, posso dizer que vi um filme nosso ganhar o Oscar!
Não podia ter vindo em melhor hora. Hoje, no Rio, as nossas escolas de samba desfilam na Sapucaí. É carnaval! É festa! A maior do mundo!
É hexa!
É ocasião especial. Diante dessa vitória, faço apenas um pedido ao Prefeito Eduardo Paes: estenda, por favor e por decreto, o carnaval!
Lisboa, 2 de março de 2025


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